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Os 18 tipos de motociclista que a gente encontra na vida

UMA CRÔNICA PESSOAL SOBRE ESSA TRIBO MARAVILHOSA, BARULHENTA, APAIXONADA, PERIGOSA PARA O CARTÃO DE CRÉDITO E INCAPAZ DE ADMITIR QUE COMPROU A MOTO SÓ PARA IR ALI E VOLTAR FELIZ

Por: Vinícius Brandão

Depois que a gente entra no mundo das motos, descobre uma coisa curiosa: motociclista não é uma categoria única. É uma fauna. Um ecossistema. Uma repartição emocional sobre duas rodas. Tem de tudo. Tem o prudente, o acelerado, o filósofo, o vaidoso, o aventureiro, o exagerado, o que entende demais, o que entende de menos e o que não entende nada, mas fala com uma segurança que dá até medo.
Como cronista e observador dessa humanidade motorizada, comecei a reparar que cada motociclista carrega um personagem. Alguns carregam até dois, três ou quatro, dependendo do dia, do clima, do grupo de WhatsApp, da estrada, da companhia e, principalmente, do limite disponível no cartão.
O mais engraçado é que ninguém se reconhece totalmente em um tipo, mas todo mundo conhece alguém. O sujeito lê e diz: “Rapaz, isso é fulano”. Cinco linhas depois, percebe que também é ele. Aí disfarça, ri baixo e compartilha no grupo dizendo: “Olha vocês aí”.

O AVENTUREIRO
O HOMEM QUE SAI PARA COMPRAR PÃO E VOLTA DIZENDO QUE DESCOBRIU UMA ROTA ALTERNATIVA PELA BOLÍVIA
O primeiro é O Aventureiro. Esse sujeito não consegue ver uma estrada secundária sem sentir um chamado espiritual. Para ele, placa de “acesso restrito” é quase um convite. Estrada de chão não é problema. É tempero. Buraco não é buraco. É teste de suspensão. Atalho não é atalho. É uma experiência de vida.
O Aventureiro sai de casa com uma missão simples: comprar pão. A família espera dez minutos. Depois vinte. Depois uma hora. Quando ele aparece, vem com a moto suja, a bota embarrada, o capacete empoeirado e a cara de quem sobreviveu a um documentário da National Geographic.
A esposa pergunta:
— Onde você estava?
Ele responde, com a maior naturalidade do mundo:
— Fui testar a suspensão.
Mentira. Ele se perdeu, gostou e transformou o erro em expedição.
Esse tipo tem uma habilidade rara: transformar qualquer caminho errado em descoberta geográfica. Se entra numa rua sem saída, diz que estava “mapeando a região”. Se pega barro, diz que foi “treino de aderência”. Se cai num trecho ruim, diz que estava “avaliando o comportamento da moto em baixa velocidade”. O Aventureiro nunca erra o caminho. Ele apenas amplia o roteiro.
O problema é que ele contamina os outros. Começa dizendo “é pertinho”, depois vem com “só mais um trecho”, “deve sair lá na frente” e, quando o grupo percebe, todo mundo está no meio do mato, sem sinal de celular, com fome, sede e um cidadão sorrindo como se tivesse acabado de descobrir Machu Picchu.

O RAIZ
O SOBREVIVENTE OFICIAL QUE ACHA CHUVA, LAMA, SOL E BANCO DURO APENAS DETALHES DA EXPERIÊNCIA
Depois vem O Raiz, aquele homem que não tem medo de chuva, sol, lama, poeira, buraco, cachorro, caminhão, estrada ruim nem banco duro. Para ele, sofrimento é acessório original de fábrica.
O Raiz não consulta previsão do tempo. Ele olha para o céu, cospe para o lado, ajusta a luva e diz:
— Dá para ir.
Se a moto ligar, ele vai. Se não ligar, ele empurra. Se chover, ele chama de batismo. Se fizer sol demais, ele chama de vitamina D. Se a estrada estiver ruim, ele diz que “é aí que começa a graça”. Se o banco estiver duro, ele culpa a geração atual, porque “antigamente era pior”.
O Raiz tem uma relação quase militar com a moto. Ele não pilota. Ele resiste. A moto pode estar batendo corrente, vibrando retrovisor, rangendo baú, com o banco rasgado e uma fita isolante segurando algo que ninguém sabe o que é, mas ele confia nela como quem confia num cavalo velho de guerra.
O Raiz também é aquele que menos precisa de equipamento e mais fala que equipamento é importante. Usa uma jaqueta antiga, uma luva com três costuras abertas e uma bota que já viu mais estrada que muito caminhoneiro. Quando alguém chega cheio de tecnologia, intercomunicador, GPS, jaqueta impermeável e calça com proteção, ele olha e comenta:
— Frescura. No meu tempo a gente andava de coragem.
No fundo, todo grupo precisa de um Raiz. Ele é o homem que leva arame, fita, chave errada, garrafa d’água, conselho ruim e fé suficiente para fazer a moto chegar onde a mecânica já não garante mais.

O NUTELLA
O MOTOCICLISTA METEOROLÓGICO QUE SÓ SAI SE O UNIVERSO ESTIVER EM PERFEITO ALINHAMENTO
Já O Nutella é o oposto. Esse só sai se o céu estiver azul, a previsão confirmar tempo firme, o pneu estiver calibrado, a jaqueta combinando com o capacete e o café tiver sido tomado na temperatura correta.
O Nutella ama moto, mas odeia qualquer coisa que lembre vida real. Gosta da estrada, mas prefere sem poeira. Gosta de aventura, mas com banheiro limpo no caminho. Gosta de vento no rosto, mas desde que não bagunce demais. Gosta de viajar, mas precisa saber se tem pousada boa, café da manhã, Wi-Fi e local coberto para estacionar a moto.
Se aparecer uma nuvem no horizonte, ele cancela o rolê com justificativa técnica:
— A umidade relativa do ar não está favorável.
O grupo chama de fraco. Ele chama de planejamento. O Raiz diz que é frescura. Ele responde que é “gestão de risco”. Na verdade, o Nutella tem medo de molhar o tênis novo, sujar a moto recém-lavada e perder o brilho da viseira espelhada que custou quase o preço de uma feira do mês.
O Nutella também tem equipamento impecável. Tudo combina. Capacete conversa com a jaqueta, a jaqueta conversa com a luva, a luva conversa com a moto, a moto conversa com o feed do Instagram. Se ele cair, a preocupação não será com o joelho, mas com o arranhão no grafismo.
Ainda assim, convém reconhecer: o Nutella é necessário. Ele é o único que lembra de levar capa de chuva de qualidade, carregador, documentação, protetor solar, garrafa térmica e reserva feita. O grupo tira onda, mas quando a coisa aperta, todo mundo pergunta:
— O Nutella trouxe alguma coisa aí?
Trouxe. Claro que trouxe. Ele se preparou para um passeio de 80 km como se fosse uma missão da NASA.

O MANEIRO
O SUJEITO QUE NÃO PRECISA ACELERAR PARA CHAMAR ATENÇÃO, PORQUE JÁ NASCEU COM POSTURA DE CAPA DE REVISTA
Existe também O Maneiro. Esse é perigoso porque não faz força para aparecer. Não acelera à toa, não grita, não se exibe, não precisa provar nada. Passa devagar, elegante, capacete bem colocado, postura tranquila, como quem sabe que está sendo observado.
O Maneiro não disputa atenção. Ele apenas atravessa o cenário e deixa o resto do grupo parecendo figurante de posto de gasolina.
Ele chega no encontro sem fazer alarde. Para a moto no canto certo, tira o capacete com calma, ajeita a luva, olha em volta e pronto. Não precisa dizer uma palavra. A moto está limpa, a roupa está no ponto, o comportamento é sereno e até o descanso lateral parece ter sido baixado com consciência estética.
Enquanto o ShowMan acelera para todo mundo olhar, o Maneiro só existe. O mundo olha sozinho.
O Maneiro sabe que estilo não é barulho. Estilo é presença. É aquele tipo que poderia estar numa Lander, numa custom, numa big trail, numa clássica ou numa scooter, mas sempre pareceria certo. Ele não depende da moto. A moto é que agradece a chance de sair com ele.
O problema do Maneiro é que irrita sem querer. O sujeito não tenta ser melhor que ninguém, mas acaba parecendo. Não fala alto, não se explica demais, não fica oferecendo opinião técnica sobre óleo, pneu e relação. Ele só sorri, toma o café e vai embora bonito na foto.
Todo grupo tem um Maneiro, ou pelo menos alguém tentando ser. A diferença é que o verdadeiro não anuncia. Quem diz “eu sou maneiro” geralmente já deixou de ser.

O VIAJANTE
O HOMEM QUE VÊ UMA PLACA DE 60 KM E JÁ COMEÇA A CONSIDERAR IR ATÉ MINAS
Tem O Viajante, que enxerga distância de um jeito diferente. Enquanto uma pessoa normal vê uma placa dizendo “Eunápolis 60 km”, ele pensa:
— Dá para esticar até Minas.
Para esse tipo, 300 quilômetros é passeio curto, 500 é bate e volta, 800 é “um diazinho puxado” e 1.000 quilômetros é assunto para contar sorrindo no almoço de domingo. O Viajante não mede estrada em quilômetros. Mede em histórias.
O Viajante tem um mapa mental que assusta. Ele sabe onde tem posto bom, onde o café é decente, onde o banheiro é aceitável, onde o frentista deixa lavar a viseira e onde a estrada fica bonita depois da curva. Para ele, posto de gasolina não é parada. É capítulo.
Esse tipo tem uma frase clássica:
— Já que chegamos até aqui, vamos só mais um pouco.
Esse “só mais um pouco” pode significar 20 km ou três estados. Ninguém sabe. Nem ele.
O Viajante também tem uma relação curiosa com dor. Dor na coluna é “parte da experiência”. Dor no joelho é “falta de costume”. Dormência na mão é “normal em viagem longa”. Quando chega ao destino parecendo que foi dobrado dentro de uma mala, ainda diz:
— Foi tranquilo.
Tranquilo para ele. Para os outros, foi uma travessia emocional.
O Viajante é aquele que volta de um passeio com 47 fotos de placa, 18 de moto no acostamento, 9 de café em copo plástico, 12 de paisagem e uma legenda inevitável: “O caminho importa mais que o destino.” Às vezes, ele nem lembra direito do destino, mas sabe exatamente onde abasteceu.

O URBANO
O GUERREIRO DO ASFALTO QUE ENFRENTA ÔNIBUS, BURACO, RETROVISOR ESQUECIDO E MOTORISTA COM RACIOCÍNIO INTERMITENTE
O Urbano vive outra guerra. A aventura dele não é atravessar deserto, subir serra ou encarar lama. A aventura dele é sobreviver ao trânsito.
Carro que fecha, ônibus que espreme, buraco que aparece do nada, motorista que esqueceu que retrovisor existe, motoboy com pressa de reencarnar e pedestre atravessando como se tivesse pacto com a imortalidade. O Urbano deveria receber medalha por chegar vivo em casa.
Esse motociclista conhece todos os buracos da cidade pelo nome. Sabe qual semáforo demora mais, qual rua alaga primeiro, qual esquina tem motorista distraído, qual avenida tem radar escondido e qual faixa de pedestre virou teste de reflexo.
Para o Urbano, a selva não tem árvore. Tem buzina.
Ele desenvolve um sexto sentido. Percebe quando o carro da frente vai virar sem dar seta. Sente quando a porta do carro estacionado está prestes a abrir. Identifica pelo movimento do pneu que o motorista vai fazer besteira. O Urbano não pilota apenas com os olhos. Pilota com trauma, experiência e leve desconfiança da humanidade.
Quando alguém pergunta se ele tem vontade de pegar estrada, ele responde:
— Estrada? Meu amigo, eu pego a cidade todo dia. Isso aqui é pós-graduação.
O Urbano é injustiçado porque parece menos romântico que o Viajante ou o Aventureiro, mas merece respeito. Ele enfrenta uma trilha diária de asfalto quebrado, calor, pressa, buzina, aplicativo, caminhão de entrega e gente dirigindo como se estivesse sozinha no planeta.

O PLAYBOY
O DONO DA MOTO QUE BRILHA MAIS QUE O FUTURO DO PAÍS E ANDA MENOS QUE CARRINHO DE EXPOSIÇÃO
Tem ainda O Playboy, dono daquela moto que brilha mais que promessa de campanha. Ele anda pouco, lava muito, estaciona em ângulo estratégico e sabe exatamente onde a luz bate melhor no tanque.
A moto dele não fica parada. Ela repousa.
O capacete não é equipamento. É composição visual. A luva não é proteção. É elemento de estilo. O posto não é lugar de abastecimento. É cenário.
O Playboy abastece R$ 20, mas faz foto como se tivesse acabado de sair numa campanha internacional de motocicletas premium. Ele não encosta a moto em qualquer parede. Procura textura, iluminação, fundo bonito, céu dramático e, se possível, uma sombra que valorize a rabeta.
A moto do Playboy é tão limpa que dá vontade de pedir licença antes de olhar. O pneu pode ter mais silicone que quilometragem. O escape brilha, a corrente está limpa, o banco parece recém-hidratado, o tanque reflete a autoestima do dono.
Ele também tem uma frase típica:
— Essa moto é para curtir, não para moer.
Curiosamente, curtir significa tirar foto, postar story, ir ao posto, tomar café, voltar para casa e limpar de novo.
O Playboy não é necessariamente rico. Às vezes é apenas um homem comum com prioridades perigosas. Pode faltar roupa nova, pode faltar reforma em casa, pode faltar passeio em família, mas produto para polir a moto nunca falta.

O ECONÔMICO
O HOMEM QUE COMPROU MOTO PARA GASTAR MENOS E DESCOBRIU UM JEITO SOFISTICADO DE GASTAR MAIS
O Econômico é uma das grandes contradições do motociclismo. Comprou a moto para gastar menos, mas já colocou baú, protetor, bolha, alforge, farol auxiliar, suporte de celular, tomada USB, cavalete, slider, adesivo, capa, jaqueta, luva e escapamento.
Se alguém perguntar, ele diz:
— É tudo necessário.
Claro. Necessário igual comprar uma lancha para economizar passagem de balsa.
O Econômico começa com discurso sério. Fala de consumo, praticidade, mobilidade, custo menor, IPVA mais barato, manutenção simples e economia no dia a dia. Convence a família, convence a si mesmo, faz conta na calculadora e anuncia:
— Essa moto vai se pagar.
Na primeira semana, compra um baú. Na segunda, uma luva. Na terceira, um suporte. Na quarta, um farol auxiliar. No mês seguinte, já está explicando por que precisa de uma bolha maior “por causa do vento no peito”.
Depois vem a frase fatal:
— Agora só falta mais uma coisinha.
Essa frase nunca é verdadeira. Sempre falta mais uma coisinha. O Econômico vive em estado permanente de quase conclusão.
No fim, a moto realmente economiza combustível, mas inaugura uma nova categoria de despesa: o acessório emocional. Aquilo que não é indispensável, mas passa a ser assim que aparece em promoção.

O BARULHENTO FILOSÓFICO
O HOMEM QUE CONFUNDE ESCAPAMENTO ABERTO COM MANIFESTO EXISTENCIAL
O Barulhento Filosófico também merece registro. É aquele que acredita sinceramente que escapamento aberto é uma forma de expressão artística.
Para ele, o ronco da moto não incomoda. Comunica. Não acorda a vizinhança. Desperta consciências. Quando passa acelerando, acha que está espalhando liberdade, mas metade do bairro só queria assistir à novela em paz.
Esse tipo fala do som da moto como se descrevesse uma orquestra. Diz que o grave “encorpa”, que o giro “limpa”, que a retomada “fala bonito”. Para o cidadão comum, é apenas barulho. Para ele, é poesia mecânica.
O Barulhento Filosófico não acelera sem motivo. Ele acelera para “sentir a alma da máquina”. O problema é que a alma da máquina costuma se manifestar às 6h da manhã, perto de bebê dormindo, cachorro nervoso e trabalhador tentando descansar.
Ele também tem uma teoria social pronta:
— Moto silenciosa não tem presença.
Tem, sim. Só não precisa avisar ao bairro inteiro que saiu para comprar pão.
O mais curioso é que ele sempre se defende com seriedade:
— É questão de segurança. O pessoal precisa me ouvir chegando.
O pessoal ouve. O pessoal, os cachorros, as janelas, os idosos, os recém-nascidos e, possivelmente, algumas entidades de outro plano.

O TRILHA DE SHOPPING
O AVENTUREIRO DE VITRINE QUE ESTÁ PRONTO PARA A PATAGÔNIA, DESDE QUE NÃO TENHA BARRO
O Trilha de Shopping é outro clássico. Comprou bota adventure, capacete com pala, jaqueta com proteção, luva reforçada, calça tática e moto alta. Visualmente, parece pronto para atravessar a Patagônia.
Na prática, o barro mais pesado que enfrentou foi no estacionamento depois de uma chuva.
Ele olha para a estrada de terra e diz:
— Hoje não, porque acabei de lavar.
O Trilha de Shopping ama o visual aventureiro. A moto tem baú, protetor, bolha, farol auxiliar e adesivo de montanha. A roupa parece preparada para enfrentar frio, calor, lama, pedra, deserto, serra e apocalipse zumbi. Só falta enfrentar.
Esse tipo gosta de estacionar em frente ao café, tirar foto com cara séria e escrever legenda sobre liberdade, poeira e caminhos desconhecidos. O detalhe é que o caminho desconhecido geralmente termina no estacionamento do shopping, na cafeteria gourmet ou no posto com conveniência climatizada.
O Trilha de Shopping não deve ser julgado com crueldade. Ele representa uma verdade profunda: nem todo mundo que se veste para a aventura quer necessariamente sofrer. Às vezes, a pessoa quer apenas parecer pronta para o mundo, mas com ar-condicionado por perto.
Ainda assim, basta aparecer uma poça grande para o grupo inteiro olhar para ele. O silêncio já diz tudo.

O REI DO ACESSÓRIO
O INVESTIDOR EMOCIONAL QUE TRANSFORMA UMA MOTO DE 25 MIL EM UM PROJETO DE 43 MIL
O Rei do Acessório é praticamente um investidor emocional da motocicleta. A moto vale 25 mil, mas já recebeu 18 mil em acessórios.
Tem protetor de motor, protetor de tanque, protetor de mão, protetor de protetor, farol auxiliar, suporte lateral, suporte traseiro, suporte de suporte, baú, bolsa, tomada, adesivo, rede, capa e uma peça misteriosa que ele mesmo não sabe explicar, mas garante que “ajuda demais”.
O Rei do Acessório não compra item. Ele incorpora solução. Tudo resolve um problema que talvez nunca exista. O protetor protege de uma queda que talvez não aconteça. O farol ilumina uma estrada que ele talvez nunca pegue. O alforge prepara uma viagem que talvez nunca saia do grupo de WhatsApp.
Quando alguém pergunta se precisa mesmo daquilo, ele se ofende:
— Precisa, rapaz. Segurança em primeiro lugar.
Segurança, conforto, estética, praticidade, alma, performance, identidade. Sempre existe uma explicação.
Esse tipo tem uma relação perigosa com sites de compra. Entra para olhar uma tomada USB e sai com suporte de GPS, capa de banco, protetor de radiador, adesivo refletivo e uma lanterna de emergência que provavelmente será usada para procurar outro acessório perdido na garagem.
A frase dele é clássica:
— Agora a moto está do jeito que eu queria.
Não está. Nunca está. Daqui a três dias aparece uma promoção.

O MADRUGADOR
O HOMEM QUE MARCA ROLÊ ÀS 5H30 E ACHA QUE ESTÁ FAZENDO UM FAVOR À HUMANIDADE
Tem O Madrugador, figura respeitada e odiada na mesma proporção. Marca saída às 5h30 da manhã porque “a estrada rende mais”.
Ele fala isso com a naturalidade de quem não tem piedade do sono alheio. Enquanto o mundo dorme, ele já está no posto, de capacete na mão, café preto no copo plástico e uma disposição que deveria ser investigada pela ciência.
O Madrugador manda mensagem às 4h47:
— Bom dia, família! Partiu?
Família nenhuma deveria receber “partiu” nesse horário.
Ele defende a madrugada com argumentos fortes. Diz que o trânsito é menor, o sol é mais fraco, a estrada está vazia, o café é melhor e o dia rende. Tudo verdade. O problema é que o ser humano normal ainda está tentando entender quem é, onde está e por que aceitou aquele convite.
O Madrugador chega animado demais. Pior: chega pontual. Às 5h15 já abasteceu, calibrou pneu, tomou café, cumprimentou o frentista, revisou o roteiro e está olhando para o grupo com desaprovação moral.
Quando alguém atrasa, ele solta:
— Eu avisei que era para chegar cedo.
O Madrugador é necessário, mas precisa ser dosado. Um por grupo basta. Dois viram seita.

O VELOCIDADE DE CRUZEIRO
O MOTOCICLISTA QUE DIZ QUE ANDA TRANQUILO, MAS O TRANQUILO DELE ASSUSTA RADAR E ANJO DA GUARDA
O Velocidade de Cruzeiro é aquele que diz:
— Eu ando tranquilo.
O problema é que o tranquilo dele assusta radar, passageiro, cachorro de beira de estrada e anjo da guarda.
Ele não acha que corre. Ele apenas acredita que a moto “pede”. A moto, coitada, nunca foi chamada para depor.
Esse tipo tem uma matemática própria. Se a via permite 80, ele entende como sugestão emocional. Se o grupo combina de ir devagar, ele vai “só um pouquinho na frente”. Esse pouquinho vira um desaparecimento no horizonte.
Quando alguém reclama, ele responde:
— Rapaz, eu nem acelerei.
O velocímetro discorda. O radar também. A alma do garupa, então, nem se fala.
O Velocidade de Cruzeiro gosta de dizer que “conhece a mão”. Conhece tanto que ignora metade dos riscos. Acha que freia bem, que deita bem, que calcula bem, que domina bem. O problema é que estrada não assina contrato de fidelidade com excesso de confiança.
Ainda assim, ele é figura típica. Todo grupo tem aquele que jura andar de boa, mas obriga os outros a olharem a placa, a curva, o retrovisor e o céu, porque talvez ele já esteja chegando de volta antes de o passeio começar.

O COMENTARISTA TÉCNICO
O ESPECIALISTA EM TODAS AS MOTOS QUE ELE NÃO TEM, NÃO TESTOU E TALVEZ NUNCA COMPRE
O Comentarista Técnico é uma instituição. Não comprou a moto, não testou a moto, não pretende comprar a moto, mas conhece todos os defeitos dela.
Sabe que o torque é pouco, o banco é ruim, o pneu não presta, o consumo é alto, o farol é fraco e a suspensão poderia ser melhor. Geralmente fala isso montado em uma moto que está fazendo um barulho estranho há seis meses.
Esse tipo vive de ficha técnica, vídeo de YouTube, fórum, grupo, comentário e opinião herdada. Ele fala de moto chinesa, japonesa, indiana, inglesa, alemã e italiana com a mesma autoridade de quem “ouviu dizer”.
Se alguém aparece feliz com uma moto nova, ele não parabeniza. Ele analisa:
— Boa, mas dizem que esse modelo esquenta.
Pronto. Matou a alegria do cidadão em oito palavras.
O Comentarista Técnico tem uma frase preferida:
— Eu não compraria.
Ninguém perguntou, mas ele informa mesmo assim.
Ele também tem pavor de entusiasmo alheio. Quando alguém diz que está gostando da moto, ele lembra que a relação é cara, o banco cansa, a revenda é difícil, o acabamento podia ser melhor e que “pelo preço dava para pegar outra”.
Qual outra? Ele não sabe. Sempre existe “outra”.

O ROMÂNTICO DA ESTRADA
O POETA DO GUIDÃO QUE FALA DA MOTO COMO SE FOSSE UM AMOR ANTIGO COM DEFEITOS PERDOÁVEIS
O Romântico da Estrada é o poeta do grupo. Fala da moto como quem fala de amor antigo.
— Ela tem seus defeitos, mas nunca me deixou na mão.
A frase é bonita, embora a moto já tenha deixado ele no posto, na serra, na oficina e uma vez na frente da casa da sogra. Ainda assim, ele perdoa. Motociclista apaixonado tem memória seletiva.
O Romântico cria vínculo afetivo com a máquina. A moto não é “ela” por acaso. Tem nome, personalidade, humor, temperamento e histórico emocional. Quando falha, ele diz que “ela está sentindo alguma coisa”. Quando pega de primeira, ele elogia. Quando lava, conversa. Quando estaciona, olha para trás.
Esse tipo não vende moto. Ele se despede. Tira foto, faz texto, agradece os quilômetros vividos e publica algo como:
— Foram muitos caminhos juntos.
Parece término de namoro. Às vezes é pior.
O Romântico da Estrada acredita que a moto entende. Talvez entenda mesmo. Ou talvez a gente seja apenas adulto demais para admitir que ainda precisa de objetos que carreguem sonhos.
Ele não quer apenas chegar. Quer sentir. Quer lembrar. Quer transformar a volta de domingo em capítulo de vida. É exagerado, sim, mas quem tem moto sabe: há exageros que fazem sentido.

O ENDUREIRO
O SER HUMANO QUE SÓ ACHA QUE O PASSEIO FOI BOM SE VOLTOU COM LAMA, DOR E UMA HISTÓRIA DE QUASE MORTE
O Endureiro vive em outra frequência espiritual. Só acredita que o passeio foi bom se voltou com lama no capacete, pedra no rim, dor no ombro e uma história de quase morte.
Para ele, estrada ruim é parque de diversão, barranco é convite e buraco é oportunidade. Enquanto uns limpam a moto para sair, ele sai para sujar a moto com orgulho quase patriótico.
O Endureiro vê uma subida impossível e sorri. Vê lama grossa e acelera. Vê um riozinho e chama de “travessia”. Vê uma pedra no meio do caminho e transforma em desafio pessoal. Ele não desvia do sofrimento. Ele agenda.
Quando volta, parece que brigou com a natureza e empatou. Está sujo, cansado, arranhado, com a moto irreconhecível, mas feliz. Feliz de um jeito que gente normal não compreende.
A frase dele é:
— Hoje foi leve.
Leve para ele significa que ninguém precisou chamar resgate.
O Endureiro também tem orgulho das marcas. Arranhão na carenagem é troféu. Amassado no protetor é lembrança. Lama seca no motor é prova documental. Se a moto volta limpa, ele considera o passeio mal aproveitado.

O TURISTA DE CAPACETE
O MOTOCICLISTA QUE TRANSFORMA QUALQUER ROLÊ EM ENSAIO FOTOGRÁFICO SOBRE LIBERDADE
Tem também O Turista de Capacete, aquele que para em todo mirante, toda praia, toda placa bonita, toda árvore fotogênica e todo lugar onde dê para escrever:
— A vida é sobre o caminho.
Ele transforma rolê em álbum de viagem. O grupo quer andar. Ele quer enquadrar. O capacete vira objeto de cena, a moto vira modelo e a estrada vira estúdio a céu aberto.
O Turista de Capacete não vê uma paisagem. Vê composição. A moto precisa estar em diagonal, o capacete no banco, a luva no retrovisor, o horizonte alinhado e, de preferência, uma nuvem bonita colaborando.
Se o grupo para para água, ele faz foto. Se para para gasolina, faz foto. Se para porque alguém perdeu a luva, faz foto também. Tudo vira conteúdo.
Esse tipo tem uma relação séria com legendas. Não basta postar. Precisa filosofar. A foto de uma parada de 12 minutos vira reflexão profunda sobre estrada, vento, alma, liberdade, escolhas e o silêncio que só quem pilota entende.
O engraçado é que, às vezes, ele atrasa o rolê, mas salva a memória. Todo mundo reclama na hora, mas depois pede a foto.

O MOTOCICLISTA DE DOMINGO
O CIDADÃO COMUM QUE DURANTE A SEMANA RESOLVE PROBLEMAS, MAS NO DOMINGO VIRA PERSONAGEM DE FILME DE ESTRADA
Por fim, há O Motociclista de Domingo. Durante a semana, ele é empresário, pai, marido, trabalhador, cidadão comum, pagador de imposto e resolvedor de problemas. No domingo, vira personagem de filme de estrada.
Coloca a jaqueta, ajusta o capacete, liga a moto e, por algumas horas, sente que a vida ficou mais leve. Não precisa ir longe. Às vezes, basta dar uma volta, tomar um café no posto e voltar para casa com a sensação de que escapou um pouco da rotina.
O Motociclista de Domingo é talvez o mais comum e o mais sincero. Ele não quer provar nada para ninguém. Quer apenas respirar. Quer ouvir o motor, sentir o vento, encontrar uns amigos, falar besteira, rir de si mesmo e esquecer por algumas horas os boletos, os problemas, as cobranças e o celular tocando.
Durante a semana, ele negocia, paga conta, resolve conflito, administra responsabilidade e engole sapo. No domingo, bota o capacete e vira outra pessoa. Não é fuga. É manutenção emocional.
A família às vezes não entende. Acha que é só uma volta. Não é só uma volta. É terapia motorizada. É silêncio dentro do capacete. É liberdade com seta, retrovisor e tanque cheio.
O Motociclista de Domingo volta para casa melhor. Cansado, talvez. Suado, talvez. Com uma história exagerada, quase sempre. Mas volta mais leve.


NO FUNDO, TODO MUNDO TEM UM POUCO DE CADA UM
No fundo, todos nós somos um pouco disso tudo. Temos dias de Raiz, dias de Nutella, momentos de Playboy, crises de Rei do Acessório, surtos de Viajante, recaídas de Comentarista Técnico e domingos em que só queremos ser livres por alguns quilômetros.
Motociclista é assim. Diz que é racional, mas conversa com a moto. Diz que é econômico, mas compra acessório. Diz que anda devagar, mas conhece todos os radares. Diz que não vai mexer em nada, mas já está pesquisando peça nova.
A verdade é simples: moto não é apenas veículo. É desculpa. Desculpa para sair, para sonhar, para encontrar amigos, para se perder um pouco, para voltar diferente e para transformar qualquer caminho comum numa pequena aventura particular.
No fim das contas, cada motociclista tem seu tipo, sua mania, sua pose e sua história, mas todos carregam a mesma doença boa: essa vontade inexplicável de ligar o motor e descobrir, mais uma vez, que a vida fica mais engraçada quando passa sobre duas rodas.


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